-
> Embora nunca tenha sido dominante,
esta evolução faz pressentir que o sistema de iluminação
tornou-se um aparelho para a leitura da obra. Esta parece não mais
poder ser apresentada na sua relação tradicionalcom a parede
e o espaço da sala do museu.
-
> Ela deve beneficiar-se, por meio
do feixe luminoso que a ilumina, de um espaço autônomo, próprio.
Isolada do contexto da história da arte – ao qual é integrada
pela presença, ao seu lado, de outras obras de um mesmo artista
ou de seus contemporâneos -, a obra é igualmente isolada do
contexto vivo, formado pelos visitantes do museu.
-
> Uma relação privilegiada
ente um espectador e um quadro torna-se, assim, possível no seio
da obscuridade que reina na sala. Este face-à-face, revestido de
conotações místicas, participa, sem dúvida,
como reforço da função litúrgica da arte.
-
> A manipulação das
iluminações, como estratégia de leitura imposta da
obra pode, no entanto, produzir outros tipos de efeitos. Eu me refiro,
aqui, mais específicamente, ao efeito de dramatização
que exerce um feixe luminoso dirigido sobre uma obra em volume.
-
> O exemplo que considero mais
marcante, o a exposição de Rodin no Museu dÓrsay em
Paris. Tirando aprtido de uma cenografia primeiramente elaborada para as
exposições de arte primitiva -principalmente porque tinha-se
que colocar em cena fragmentos de objetos destruídos pelas condiçòes
de uso ou de clima -, os orgnizadores desta exposição revelaram
um novo aspecto da obra de Rodin: seu trabalho sobre os fragmentos.
-
> Deste modo, toda uma parte da
obra – até então oculta no atelier do artista – tornou-se
passíveld e ser exposta, graças ao apoio técnico conferido
pela iluminação. A dramatização é,d
e fato, dentrod a mais pura tradição romântica, o recurso
absoluto para colocoar em cena uma obra, que apoiada num caráter
fragmentário, renunciou por si mesma aos cânones clássicos
da totalidade significante.
-
> Verificamos, por meio deste exemplo,
como um procedimento de leitura, baseado num procedimento técnico,
abre novas perspectivas sobre a estética de um artista, ao mesmo
tempo em que participa da espetaculariação da arte.
-
> Há, enfim, neta área,
um caso limite que gostaria de tomar como último sitnoma do que
a utilziação da luz pode provocar. Trata-se de uma exposição
da doação Paul Guillaume, organizada há dois anos,
na Orangerie das Tulherias.
-
> Os quadros foram apresentados
numa sala completamente imersa na obscuridade, reestida de tecido negro.
O sistema de iluminação dos quadros era tcnicamente tão
preciso, que nenhum raio de luz ulrapassada os limites da superfície
do quadro.
-
> O espectador tinha, então,
a impressão , não de ver pinturas, mas sim imagens que flutuavam
numa obscuridade bastante misteriosa, pois nãos e conseguia perceber
nem o solo ou mesmo as paredes. O resultado surpreendente foi que o visitante
não via verdadiramente quadros, ms sim, como num espetçulo
audiovisual, imagens de quadros, saindo do nada.
-
> Talvez este espetáculo
tivesse agradado a André Malraux, pois neste caso deve-se falar
de puro espetáculo de imagens e não mais de exposição
de quadros. A materialidade da tela e da pintura, em tais circunstâncias,
desaparece totalmente. Sobra apenas a imagemque constitui o fundamento
do Museu Imaginário, analisado por Maulraux.
-
> É siginifictivo constatar
que nesta realização, que coloca a arte em espetçulo,
o que considero aberrante, o olho não consegue Ter uma percepção
da obra diferente daquela que ele teria tido se lhe fosse proposto, em
circunstâncias idênticas, projeções de diapositivos,
em uma palavra, diaporama.
-
> O domínio da luz no contexto
do desenvolvimento comtemporâneo do museu é, portanto, extremamente
revelador das opções que lhe são abertas. Não
nos surpreendemos, então, ao constatr que este aspecto da “mise
en scène”da arte , assumiu uam importância consierável,
a ponto de provocar uma redistribuição parcial dos poderes,
dentro da instituição museológica.
-
> A carreira de uma pessoa como
Gae Aulenti é repreentativa destas modificações: especialista
em iluminação, ele se torna responsável pela construção
e organização do Museu dÓrsay, antes de lhe confiarem
as novas instalações das coleções permanentes
do Museu Nacional de Arte Moderna.
-
> Embora este caso seja anedótico,
ele é representativo da profissionalização do ofício
de iluminadordentro do universo do museu (era antes um ofício essencialmente
ligado ao teatro e ao cinema) e das aberturas que este tipo de trabalho
oferece, a partir de agora, num mundo fascinado pela espetacularização.
-
> Acrescento que este fenômeno
nãoa tinge somente o museu. OS urbanistas se interessam cada vez
mais pelas possibilidades que oferece a iluminação, para
dar uma coerência ao tecido urbano, provavelmente quando eles se
confrontam com o caráter fragmentário da construção,
feita de pedaços que muitas vezes não são unidos nem
por um estilo, nem por uma estrutura espacial.
-
> A luz, neste contexto, pode dar
um caráter masi vivo a um ou outro prédio, singularizando-o
do conjunto, mas pode também, pelo contrário, dar um sentimento
de continuidade e coerência em locais onde a especulação
imobiliária agiu às cegas.
As funções do
museu e nossa relação com a temporalidade
-
> Como observa corretamente Kryszstof
Pomian¹ , as quatro funções das obras de arte
são, por si mesmas, ligadas às diversas noções
que nossa cultura construiu com relação ao tempo: a função
decorativa está aliada ao presente; a comemorativa ao passado; a
educativa ao futuro; e a litúrgica está orientada ao além
e à eternidade.
-
> Esta organização
era, além do mais, bem conhecida de todos, pois é sobre ela
que se construiu a hierarquia dos gêneros, onde a pintura religiosa
ocupava a posição mais elevada, integrada como era ao culto,
a partir do quel ela desenvolvia sua função litúrgica,
seguida pelo grande gênero, a pintura histórica sagrada e
profana e, também, mitológica.
-
> Em terceiro lugar, vem a pintura
comnemorativa, que celebrava os acotecimentos e mesmo os personagens, e
englobava portanto os retratos: no escalão inderior dos valores,
encontrava-se a pintura decorativa, assim como a pintura de gênero,
desprovidas, uma como a outra, de qualquer exemplaridade devido a
seus laços com o presente. Assim era a organização
cultural da relação com o tempo, no que chamarei de cultura
clássica, isto é, até o Século XIX.
-
> Não basta dizer que o
Século XVIII vai modificar profundamente esta hierarquia,a bolindo
em grande parte a relação com o além, mesmo se a noção
de progresso, colocada em posição de honra pelo Século
das Luzes, recicla certos elementos desta dimensão, confiando ao
passado a função de exemplo.
-
> Acompanhando Max Weber, o qual
salienta que a Igreja foi durante muito tempo detentora do monopólio
da manipulação dos bens de salvação, podemos
afirmar que, a criação do Estado moderno – e singularmente
na versão jacobina francesa -, o Estado-nação se encontrou,
a partir do Século XIX, como o organizador monopolista dos bens
ligados à temporalidade. Em outras palavras, dos bens culturais.
-
> É ele quem, por meio do
museu, vai reorganizar a relação dos cidadãos com
o tempo e, consequentemente, com a história. Esta manipulação
do passado, com o fim de se liberar da tradição para abrir
um futuro diferente, determinará toda a argumentação
dos promotores revolucionários que – como observa corretamente Hayden
White -, escreveram a história contra o passado, como no Século
das Luzes.
-
> Tranasformando os acontecimentos
e as obras de um passado desprezado - e abolido em testemunhos que pudessem
servir a edificação e ao reforço da nova consciência
– os revolucionários faziam entrar no museu, acontecimentos e objetos
de status ambivalentes, pois eles eram, ao mesmo tempo, prova material
dos erros de maus governos do passdo e, também, a prova – por suas
qualidades artísticas – da universalidade da predisposição
ao belo por parte dos indivíduos que foram seus autores.
-
> Maus e bons, segundo o procedimento
de compreensão que os estudava, estes objetos entraram, graças
ao museu, na grande pedagogia revolucionária e, logo após,
republicana, que então se construía.
-
> Dominique Poulot cita, com relação
a isto, o presidente do Comitê de Instrução Pública
no dia 28 frimário do ano II (18 de dezembro de 1793), que definia,
deste modo, o patrimônio sobre o qual poderia ser construída
a nova exemplaridade: “o que pode servir simultaneamente de ornamento,
de troféu e de apoio à liberdade e à legalidade”.
²
-
> De um modo significativo, nós
reencontramos aqui as funções habitualmente atribuídas
às obras de arte: o ornamento ligado a função decorativa,
o troféu que celebra a memoria vitoriosa, na comemoração
do passado e o apoio à liberdade e à legalidadeee, que é
tipicamente a dimensão educativa, dentro da qual o pensamento do
Século das Luzes depositou tantas esperanças.
-
> So falta , mas isto não
nos surpeende de parte do racionalsimno triunfante, a função
litúrgica. A este respeito, relembraremos que - em forno da
Festa do Ser Supremo e, após, com Auguste Comte, autor do culto
dos Grandes Homens -, o espírito republicano encontrará
diversas formas de transcendência, dentro das quais apoiará
sua idéia de progresso e, portanto, sua relação com
o passado e o museu. Poderemos então dizer que o Panteão,
onde estão reunidos os túmulos dos Grandes Homens, concretiza
a função de museu, na sua versão litúrgica.
-
> Se eu quizesse concluir, eu teria,
neste momento, tentar caracterizar noso frenesi atual pelos museus. De
quais funções, múltiplas, sem dúvida, nossa
cultura investe o museu e de qual relação com o tempo, os
enômenos que passei em revista represenam o sintoma?
-
> De forma modesta, pois estas
questões parecem-me temerárias. Apresento duas conclusões
à guisa de conclusão.
-
> A primeira, diz respeito à
entrada dos objetos do passado na circulação comercial. O
crescimento dos museus, sua personalização, a expansão
paralela do mercado de arte e de seus profissionais, o desenvolvimento
conjunto de um mercado do livro, relacionando-se com todas as formas de
arte e de atividades humanas – aliás Museu Imaginário - ,
constituem juntas a esfera comercial, construi’da em torno dos objetos
do passado, isto é, dos objetos que perderam sua função.
-
> Haveria então uma função
social, além da função comercial, daquilo que já
está fora de função? Estes desenvolvimentos indicariam
o nascimento de uma preocupação de instituicionalização
da própria memória, da memorialização, além
dos conteúdos especificos veiculados por esta memória?
-
> De certo modo, pode-se observar
que todos os objetos que entram no museu foram desligados de sua função,
eles são todos “defuntos” (defuncti), o que lhes confere, talvez,
uma aura sagrada.
-
> Eu utilizei, há pouco,
a noção de “objetos do passado”, que empresto de Aloïs
Riegi, o qual apresenta a a lógica de extensão das “memorabilia”
sob o ângulo da fascinação, própria à
sociedade moderna, por tudo o que é seu outro absoluto como moderno:
o passado. A dominação sem partilhar do valor de modernidade,
teve como efeito a eliminação de todo valor de referência
dos monumentos culturais do passado.
-
> No século XIX, o próprio
Marx falava ainda do perene tesouro da cultura grega. O século XX
não lhe pretará mais atenção do que à
cultura medieval e logo à cultura técnica do século
XIX. Se o passado não oferece mais modelos intemporais, pdoendo
servir de norma, o que resta do passado é sua morte. Ou, como diz
Riegl: “o ciclo necessário da degradação”. Seria
este ciclo, o seu reverso, a dinâmica da Fênix, que este anseio
memorial e museológico revelaria?
-
> O argumento inverso poderia também
ser invocado. Na linha da pedagogia do Século das Luzes, consideraríamos
a apresentação como espetáculo de formas e de funções
práticas defuntas, como a ocasião para uma homenagem a permanência
da inventividade humana. E veríamos, nestas filas intermináveis
às portas dos museus, uma peregrinação às fontes
sempre inesgotáveis do gênio Humano. Eu não escolherei
entre estas duas versões, como entre as cem outras que foram expressas
nestes últimos anos.
-
> Acrescento, enfim, uma última
observação. Há pelo menos dois séculos que
nossas cultura debatem o museu. Não poderíamos, conseqüentemente,
deixar de refletir sobre estas questões de modo histórico.
Ora, no início deste século, um artista, o qual influenciou
muitos outros, questionou-se sobre o futuro da arte na era do museu: Marcel
Duchamp. Suas conclusões parecerão paradoxais: pintor de
talento e coroado pelo sucesso, ele decide subitamente deixar de pintar.
-
> Se ele deixou de ser pintor,
Duchamp, no entanto, não parou de produzir, digamos, como artista.
Ora, sua produção – de difícil definição
entre o “readymake”e a instalação – diz respeito, diretamente
e de modo mauito variado, ao museu: ele cria o primeiro museu de arte comtemporânea
(a Sociedade Anônima), ele se auto-museifica, criando um pequeno
museu
pessoal e portátil (a Caixa na Valise) e finalmente ele polemiza
com o museu e suas normas, criando um novo tipo de objetos museificáveis,
desde então museificados: os “readymakes”.
-
> Esta atividade bastante singular
– assim como as numerosas obras concebidas ao longo deste século,
para outros locais que não o museu (land art, etc..) – atestam que
a proliferação dos museus não deixou os artistas inativos.
Na verdade, eles o assimilaram, e de uma maneira muito crítica,
como testemulham, nos passos de Duchamp, Marcel Broodhaers e Daniel Buren.
Nào foi Duchamp quem disse : “poderemos ainda fazer hoje em dia
alguma coisa que não seja uma obra de arte? “ e não foi Beuys
quem conretizou esta profecia?
-
> Ocorre então, no caso
do museu e do conceito de arte que lhe é atribuído, o que
acontece cada vez que uma instituição torna-se dominante:
as formas de constestação multiplicam-se e os espaços
da nova legitimidade vêm colocar em dúvida as práticas
dominantes.
-
> Após a arte, o museu estaria
ameaçado de morte? Certamente que não, em termos humanos.
Mas, sua expansão permitiu que certas problemáticas se deslocassem
da criação artística e que fosse assim relançada
a questão ds funções do museu, no futuro, na sociedade
e na cultura.
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