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> A partir
desse quadro, o Mercosul aparece como uma construção geo-política,
uma pirâmide com três vertentes baseadas sobre um fundamento
econômico, o mercado, mas uma vertente de adorno contemporâneo,
chamada de “último lustro”, com a polissemia da palavra lustro:
brilho, brilhantismo, renome (além do sentido temporal).
-
> Agora,
a semântica subjacente à construção piramidal
articula dois elementos: a ordem geométrica do plano horizontal,
domínio e competência do medidor, com a dinâmica vertical
do tempo. À primeira vista, pois, a geometria espacial e a política
temporal se articulam na determinação do conceito da Bienal
da mesma forma que se articulam ordem e progresso na bandeira brasileira.
-
> O Brasil
tem sempre pensado a sua existência na perspectiva da concretização
deste motivo enunciado na bandeira. Apesar de tudo, o Brasil é um
país que tem futuro, só que o presente da sociedade ainda
corresponde a um estado inacabado do programa positivista colocado na bandeira.
Na consciência íntima de muitos dos brasileiros, a realidade
nacional ainda está definida tanto pela desordem e pelo atraso,
como pela falta de progresso.
-
> Esta realidade
corresponde, por seu lado, à geometria trágica do subdesenvolvimento,
ou melhor dito, ao desenvolvimento desigual da sociedade, que reforça
permanentemente a oposição entre os centros industriais,
particularmente São Paulo, e o nordeste agrário e socialmente
atrasado. Além do modelo ideológico de “ordem e progresso”,
existe ainda outro modelo estruturante da realidade simbólica brasileira,
caracterizado pelas violência e pobreza. Como afirmou Ronald Schneider,
“o erro dos historiadores e cientistas políticos que estudaram o
Brasil nos últimos 40 anos foi presumir que os governos fortes intercalavam
períodos democráticos, quando na verdade era evidente que
os governos democráticos é que eram os entretantos de governo
fortes” (citado por Carlos Guilherme Mota, em Ideologia da cultura brasileira,
pp.46-47).
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> Nos anos
50, a consciência brasileira vai passar do que Antonio Candido chama
de “consciência amena do atraso” para a consciência de país
desenvolvido (Hélio Jaguaribe, Celso Furtado, Ferreira Gullar, etc).
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> Temos então
uma dupla articulação do espaço e do tempo brasileiro.
O espaço está organizado pelos dois pólos geográficos
Norte/Sul, com uma conotação ideológica marcada pela
oposição entre a pobreza nordestina e a riqueza industrial
paulosta, mas também entre oligarquismo retrógrado nordestino
e espírito empresarial e modernizador do sudeste.
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> O fato
desta contradição social ser responsável pela imigração
e pelo desenvolvimento urbanístico desordenado das cidades do sudeste
construiu um elemento dialético no processo ideológico.
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> É
interessante notar que o Rio Grande do Sul ocupa uma posição
geográfica marginal nessa configuração mítica
do espaço brasileiro, apesar dos conflitos históricos com
a Federação. Isto talvez tenha a ver com a natureza das fronteiras
das diferentes partes do país. Por causa do mar e da floresta amazônica
e andina bordejarem três quartos do país, o Brasil quase não
tem fronteiras com entidades políticas organizadas, senão
ao sul. Por isso, o Brasil tem tanta facilidade em considerar-se a si mesmo
como um continente. Ao mesmo tempo, o Rio Grande do Sul foi o único
estado a ter delimitado de maneira positiva seu espaço, mediante
o combate militar com os povos da Prata, como narra Érico Veríssimo
em seu romance "O tempo e o vento".
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> Além
da geografia, organizadora dos espaços, a consciência brasileira
tem também um eixo temporal sublinhado na palavra “progresso”. Ele
é fundamentalmente pensando na ordem política, já
que desenha, através do contraste, “ordem e progresso” a vertente
voluntarista temporal, como projeção no futuro, permite ainda
acreditar nas palavras “ordem e progresso”, inscrevendo-as na dinâmica
do tempo, apesar da desordem e do atraso presentes.
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> A auto-consciência
brasileira baseia-se, pois, primeiro na geometria, mas também na
dinâmica voluntaristas do progresso. Como sempre, quando duas palavras
se juntam o problema semântico fica na articulação
da partícula conectiva “e”. Como podemos pensar essa articulação
entre o plano estável geométrico, de onde emerge a medida,
e a dimensão dinâmica do futuro progressista?
-
> Na filosofia
tradicional esta palavra é a palavra “dialética”. Na sua
formulação hegeliana, a dialética resolve a contradição
entre o essencialismo das substâncias (mundo da geometria) e a transformação
das coisas e dos sentidos no tempo, através da noção
da Aufhebung, dialética, supressão e preservação
das coisas ao mesmo tempo.
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> É
sintomático da ideologia, de toda ideologia, esta dificuldade de
articular os elementos, de ultrapassar os limites conceituais inerentes
ao essencialismo neutralizantes da construção mítica.
Como se sabe, o mito constrói sempre o mundo como se fosse um mundo
natural, criado de toda eternidade, assim como é conforme as regras
naturais e não humanas.
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> Marcel
Duchamp tem figurado esse paradoxo epistemológico numa figura articulada
visualmente. A obra leva um título esquisito: La Mariée
mise à nu par ses célibataires, même, também
chamada de “grande vidro”. Eliminando a superfície opaca do telão,
sobre a qual o mito da representação em perspectiva tem inscrito,
desde o Renascimento, sua tentativa de recomposição do real,
esta obra torna impossível o olhar determinado pelo ponto de vista,
tal como implacava a teoria renascentista da perspectiva. A reativação
do ponto de vista anula a possibilidade de medida, ponto essencial para
Duchamp, ilustrado nas várias obras relativas ao conceito de stoppages
étalon (faz cair um fio de um metro no chão...).
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> Sem entrar
numa análise dessa obra, quero assinalar três pontos importantes:
o primeiro é o da divisão entre os dois espaços, baixo
e alto, masculino e feminino. Esta divisão está fortemente
marcada como fronteira. Só permanece um buraco à direita,
por onde passa o gás.
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> O universo
masculino (baixo) está descrito conforme as regras da perspectiva,
“more geometrico”, conforme também os princípios da ordem
métrica e mecânica, e finalmente conforme os modelos estabelecidos
das funções sociais, das identidades sociais, como atesta
a presença dos uniformes, costumes e libré como metáforas
do conceito tradicional de identidade social.
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> Segundo:
ao contrário, o universo feminino (alto) não obedece à
perspectiva, os mecanismos que aparecem (os pistões) tampouco têm
forma geo-métrica (Via Láctea).
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